Sabia que, na Malásia, a criação de cooperativas escolares é prevista em lei? Desde 1989, todas as escolas secundárias públicas do país são obrigadas a manter uma koperasi sekolah – como são chamadas localmente, o que faz com que o cooperativismo seja incorporado ao cotidiano escolar de maneira profunda e estruturada.
Embora obrigatórias desde aquele ano, as cooperativas escolares malasianas surgiram ainda em 1968, com o objetivo inicial de oferecer alimentos e materiais escolares a preços acessíveis. Com o tempo, esse propósito se expandiu. Hoje, o país abriga mais de 2,4 mil cooperativas escolares, reunindo cerca de 1,6 milhão de membros, entre estudantes que têm de 12 a 18 anos, professores e funcionários, que participam ativamente do funcionamento dessas organizações.
O que mais impressiona na experiência do país é a variedade de serviços oferecidos. As cooperativas escolares podem operar cafeterias, livrarias, gráficas, lavanderias, agências de turismo estudantil, viveiros, centros de arte, iniciativas agrícolas e até pequenos spas. Em muitas escolas, esses empreendimentos funcionam como empresas sociais, integradas à rotina escolar e capazes de gerar receita e impacto direto na vida dos alunos e da comunidade.
O modelo malasiano reforça algo essencial: o protagonismo estudantil. Os jovens participam da cooperativa como membros de pleno direito, elegem seus conselhos, acompanham assembleias e aprendem a conduzir processos democráticos de decisão.
Muitos estudantes têm sua primeira experiência real com gestão, liderança, planejamento e finanças dentro de uma cooperativa da própria escola. Para apoiar esse processo, a Angkatan Koperasi Kebangsaan Malaysia Berhad (ANGKASA) – organização que representa as cooperativas na Malásia - oferece treinamentos, orientações e suporte contínuo, ajudando a transformar a cooperativa em um espaço de aprendizado vivo, prático e coerente com os princípios cooperativistas.
A forte institucionalização também se reflete em iniciativas de reconhecimento, como o programa School Cooperative Excellence Awards (SCEA), desenvolvido em conjunto com o Ministério da Educação da Malásia. As cooperativas que participam enviam relatórios anuais e recebem visitas de avaliação, em um processo que valoriza as melhores práticas e dá visibilidade ao impacto social e educacional gerado por esses empreendimentos juvenis.
Mais do que ensinar a gerir, as cooperativas escolares do país exercem um papel significativo na formação dos estudantes. A experiência malasiana mostra como o cooperativismo pode ser um ator-chave na educação, combinando a teoria e a prática e extrapolando o espaço das salas de aula.
Impacto direto no ambiente escolar
As cooperativas escolares contribuem de forma ampla para o bem-estar da comunidade estudantil. Parte das sobras é destinada ao apoio de estudantes e famílias em situação de necessidade, ao subsídio de transporte, ao patrocínio de atividades escolares e até a melhorias estruturais nos prédios das escolas públicas. Assim, a cooperativa se torna um instrumento de fortalecimento comunitário e de construção de uma escola mais acolhedora e solidária.
Para ilustrar o alcance desse impacto, basta observar a SMK Tun Abang Haji Openg, uma das escolas visitadas pela Aliança Cooperativa Internacional (ACI). Em 2019, sua cooperativa contava com 1.341 membros e tinha papel central no funcionamento do ambiente escolar, vendendo materiais, organizando campanhas e apoiando eventos.
Esse é um exemplo concreto de como o cooperativismo, quando integrado ao dia a dia da escola, se torna uma ferramenta capaz de fortalecer vínculos, promover autonomia e gerar benefícios duradouros para toda a comunidade. Ele mostra que, quando bem estruturado, o cooperativismo escolar pode ser um motor de transformação econômica, social e cultural dentro da escola.
Diferenças e semelhanças com as cooperativas juvenis do Brasil
As cooperativas escolares da Malásia se assemelham às cooperativas juvenis do Brasil, mas existem algumas diferenças entre esses dois modelos. No primeiro caso, a iniciativa é institucionalizada e possui até mesmo uma legislação instituída pelo Ministério da Educação do país. Já no Brasil, são as cooperativas de crédito que, de forma espontânea, fomentam essa frente: o Sicoob, as cooperativas mirins; e o Sicredi, as cooperativas escolares.
No entanto, em ambos os países essas cooperativas não têm fins lucrativos. Na Malásia, os membros realizam atividades comerciais para se beneficiarem delas, adquirindo produtos e serviços a preços mais acessíveis. Nas cooperativas mirins e escolares brasileiras, os alunos comercializam itens produzidos de forma artesanal, mas em menor escala e unicamente com finalidade pedagógica.
Na Malásia, não só os alunos participam cooperativas escolares. Professores e outros profissionais do centro educacional também podem fazer parte. No Brasil, a iniciativa é voltada exclusivamente para estudantes, sejam eles de cooperativas educacionais (particulares) ou de escolas públicas.
Outra diferença é a quantidade de cooperativas e membros. Enquanto na Malásia 2,4 mil cooperativas escolares reúnem1,6 milhão de membros, no Brasil a escala é menor, por serem inciativas mais direcionadas. As 10 cooperativas mirins presentes do Espírito Santo, por exemplo, reúnem mais de 450 alunos. Já as mais de 280 cooperativas escolares do Sicredi reúnem, em todo o país, mais de 8,5 mil estudantes.
Sobre semelhanças, tanto na Malásia quanto no Brasil os cooperados participam da gestão da cooperativa, realizando eleições e administrando as atividades necessárias. Os alunos aprendem a trabalhar em equipe e a adquirir habilidades essenciais para o futuro. Nesses dois contextos, a comunidade também é beneficiada, por meio de ações que visam promover o bem-estar coletivo.
Em resumo, enquanto na Malásia a iniciativa assume uma dimensão operacional e institucionalizada, diretamente amparada pelo governo e por uma federação nacional, as cooperativas mirins e escolares brasileiras costumam ter um papel mais pedagógico e descentralizado.
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